Uma manhã na cidadeNas primeiras horas da manhã percorro o percurso que me leva até à faculdade. Naqueles instantes passam outras vidas por mim, outras histórias....
Pessoas a correr para os transportes públicos e pessoas a correr por desporto, fones nos ouvidos perdidas no seu mundo.
A mãe aperta o casaco do filho, posiciona-lhe a mochila e dá-lhe um beijo de despedida deixando-o na escola.
Os comerciantes abrem as suas lojas e esperam que estas vão sendo preenchidas pelos primeiros clientes do dia.
Os cafés servem os pequenos-almoços àqueles que optaram por não o tomar em casa.
Homens de fato e gravata passam por mim a caminho do seu trabalho.
Mas não é aqui que se passa a vida, é mais em baixo. Onde o cimento se confunde com o cartão. Onde há quem faça do chão a sua casa. Aí vive-se, luta-se para viver. As mãos esticam-se pedindo ajuda a quem passa lá em cima, lidando com o facto de que há quem prefira fingir que não existem. Que por mais alto que se grite a voz não é forte o suficiente para se fazer ouvir.
Pelo vidro do autocarro em andamento vejo a senhora idosa no chão. As rugas marcam-lhe o semblante triste. Uns metros mais à frente surge outro. E há os que imploram ajuda por amor de deus.
O autocarro segue o seu caminho e tudo à volta se vai tornando num borrão. A vida continua e eles vão continuando por lá, dia após dia, cada vez mais...